Mãe Aninha do Ilê Axé Opô Afonjá

 



Mãe Aninha do Ilê Axé Opô Afonjá

Biografia 

 Mãe Aninha nasceu em 1869 com o nome de Eugênia Anna dos Santos, em Salvador, Bahia, em uma época em que o Brasil recém havia abolido a escravidão, mas mantinha profundas marcas do racismo e da marginalização dos povos africanos e seus descendentes.

 Cresceu em meio a rezas sussurradas, folhas colhidas em segredo e o ritmo ancestral dos tambores abafados pela repressão. Desde pequena, mostrou uma sensibilidade fora do comum: era daquelas crianças que ouviam mais do que falavam e sabiam quando o silêncio dizia mais que o grito. Criada por uma família que ainda carregava cicatrizes da escravidão, Mãe Aninha teve contato desde cedo com as tradições religiosas africanas, principalmente com o culto aos orixás. 

Na juventude, foi iniciada no candomblé pelo terreiro do Gantois, sob os cuidados de Mãe Pulquéria. Com o tempo, tornou-se conhecida pela firmeza no olhar, a sabedoria das palavras e o equilíbrio entre autoridade e acolhimento. Era respeitada tanto pelos mais velhos quanto pelas crianças que corriam pelos terreiros. 

 Mulher de traços fortes, voz serena e pés firmes no chão de terra batida, Mãe Aninha não se limitava ao terreiro. Conversava com professores, médicos, intelectuais, capoeiristas e até políticos.

 Defendia que a religião de matriz africana não era segredo, mas ciência, história e cultura viva. Foi com esse espírito que fundou, em 1910, o Ilê Axé Opô Afonjá, um dos terreiros mais importantes do Brasil. Ali, cada folha tinha nome, cada canto tinha função, e cada gesto era herança. Para ela, ser mãe de santo era mais do que guiar rituais: era ser ponte entre mundos, guardiã de saberes e conselheira de vidas. Ajudou a alfabetizar filhos de santo, acolheu mulheres perseguidas e fez do terreiro um espaço de resistência e dignidade. 

Nunca se considerou uma militante política no sentido clássico, mas suas ações eram profundamente políticas: manteve viva a cultura iorubá em um país que insistia em apagar a presença africana.

 Mãe Aninha faleceu em 1938, mas sua presença ainda ecoa nos cantos entoados, nas folhas sagradas e nos gestos repetidos nos terreiros que ela ajudou a firmar. Seu legado vai além da religião: ela plantou uma ideia de futuro onde o respeito às raízes e o conhecimento ancestral caminham lado a lado com a liberdade e a educação

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