História Mãe Aninha

 



Mãe Aninha do Ilê Axé Opô Afonjá

História No final do século XIX, o Brasil recém saía do regime escravocrata, mas os grilhões culturais e sociais ainda estavam firmemente presos aos corpos e às práticas dos povos africanos. Foi nesse contexto que Eugênia Anna dos Santos, conhecida como Mãe Aninha, se destacou como uma das figuras mais influentes na resistência e valorização das religiões de matriz africana. Sua atuação ultrapassou os muros dos terreiros: ela transformou o candomblé em um símbolo de dignidade, identidade e organização comunitária. 

 Filha de ex-escravizados, Mãe Aninha teve contato com o candomblé desde a infância. Iniciada por Mãe Pulquéria no Terreiro do Gantois, herdou dela não apenas os segredos de orixá, mas também uma visão ampla sobre a importância de preservar o conhecimento africano no Brasil. 

Quando fundou o Ilê Axé Opô Afonjá, em 1910, Mãe Aninha não criava apenas mais um terreiro — ela lançava as bases de uma instituição cultural, educativa e espiritual que atravessaria séculos. Localizado em Salvador, o Ilê Opô Afonjá foi pensado como um espaço de força ancestral, mas também de diálogo com a sociedade.

 Ao contrário da tradição de manter os terreiros reclusos e protegidos do mundo externo, Mãe Aninha entendia que era preciso se posicionar publicamente. Recebeu jornalistas, professores, antropólogos e autoridades em seu terreiro. Conversava com todos, mas sem abrir mão dos ritos, do segredo sagrado e do respeito à tradição. Foi essa postura que lhe garantiu reconhecimento e respeito, até mesmo fora da comunidade religiosa. 

 Mãe Aninha também foi pioneira em formalizar atividades educativas dentro do terreiro. Incentivou a alfabetização de filhos de santo e criou núcleos de formação cultural, onde se aprendiam cantos, toques, danças, mitologia, preparo das folhas e fundamentos da língua iorubá. Em uma época em que o candomblé era criminalizado e perseguido, ela transformou o terreiro em um centro de educação informal afro-brasileira, que formava não apenas sacerdotes, mas cidadãos conscientes de sua identidade. 

 Sua relação com os orixás era de profundo respeito e entrega. Como iyalorixá de Xangô, incorporava a justiça, a firmeza e o equilíbrio. Participava dos rituais com intensidade, mas também com um olhar atento ao coletivo. Para ela, cuidar do axé era também cuidar da saúde emocional, alimentar e espiritual de cada pessoa da comunidade.

 Seu terreiro funcionava como centro de cura, espaço de escuta e refúgio para mulheres vítimas de violência, pessoas doentes e jovens sem rumo. 

 Mãe Aninha faleceu em 1938, mas seu legado permanece vivo. O Ilê Axé Opô Afonjá continua ativo e é hoje um dos mais respeitados terreiros do Brasil, reconhecido como Patrimônio Cultural do Estado da Bahia. Sua trajetória inspira não apenas líderes religiosos, mas também educadores, artistas e militantes do movimento negro. Mãe Aninha plantou um axé que não seca — um axé que educa, transforma e resiste.

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