Clementina de Jesus da Silva
Biografia Clementina de Jesus da Silva nasceu em 7 de fevereiro de 1901, na cidade de Valença, no estado do Rio de Janeiro. Filha de ex-escravizados, cresceu em um ambiente profundamente enraizado na oralidade, na música e nas tradições do povo negro. Sua infância foi marcada por cantos, rezas, rodas de jongo e histórias que transitavam entre a fé católica popular e os saberes afro-brasileiros herdados de seus ancestrais.
Desde cedo, sua voz impressionava os vizinhos e familiares, embora ela não tivesse formação musical formal. Mudou-se com a família para o bairro de Osvaldo Cruz, no subúrbio carioca, ainda jovem. Trabalhou como empregada doméstica por décadas, sempre cantando enquanto lavava roupa ou varria o quintal.
Era no ritmo cotidiano das casas de família que Clementina tecia sua identidade sonora. Seu canto, moldado pela vida dura, ganhava contornos de lamento, reza e resistência — uma mistura de saudade e força ancestral. Apesar da invisibilidade imposta à mulher negra da periferia, Clementina cultivava uma profunda dignidade.
Nunca renegou sua origem nem se moldou aos padrões impostos pela sociedade branca elitista. Sua religiosidade era marcada pela fé nos santos católicos, mas também pela conexão com as forças de axé, que ela expressava sem artifícios, de forma intuitiva e autêutica. Sua casa simples era um espaço de acolhimento para vizinhos, amigos e músicos populares.
Aos 63 anos, já aposentada e anônima para o grande público, Clementina foi descoberta por Hermínio Bello de Carvalho em uma roda de samba. A partir daí, sua carreira artística se iniciou com força avassaladora. Sua voz rouca, carregada de emoção e ancestralidade, impactou o cenário musical brasileiro e rompeu as barreiras do tempo.
Tornou-se referência viva da cultura afro-brasileira, conectando o Brasil urbano moderno com os sons esquecidos dos terreiros, dos quintais e das senzalas. Clementina faleceu em 19 de julho de 1987, mas sua voz permanece como um eco eterno da ancestralidade negra no Brasil.
Mais do que uma cantora, ela foi uma griô, uma guardiã de memórias, uma ponte entre mundos. Sua história inspira não apenas por seu talento, mas por sua trajetória de resistência, fé e amor às suas raízes. Clementina de Jesus não se curvou ao esquecimento — ela o cantou de volta à vida. ________________________________________
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